Ao amanhecer no quartel de pedra e poeira, o som dos passos ritmados parecia oração. O Leão, comandante por vocação, liderava sem rugidos; ensinava que disciplina é serviço. Ao seu lado, o Cavalo, amigo leal, escutava os silêncios e apontava caminhos com coragem serena. Juntos lembravam que a ordem não é inimiga da bondade. Nas noites frias, na sentinela, agradeciam a Deus pela missão de proteger a vida e treinar as patas para a paz.
Certa tarde, um rumor cortou o pátio. Lobos e macacos divergiram sobre a guarda do portão: uns falavam em favoritismo, outros temiam o cansaço. O murmúrio virou redemoinho, arrastando raposas, aves e hienas para lados opostos. Olhares endureceram, tambores de cascos ecoaram, e a harmonia do quartel pareceu rachar.
Quando as vozes subiram e os cascos bateram forte, o Leão ergueu a pata e subiu numa caixa de munição vazia. O Cavalo ficou a seu lado, respirando fundo. O Leão propôs um dia de escuta: cada grupo falaria, ninguém interromperia. Mostrou a cicatriz no ombro, lembrança de quando o perdão o salvou de um combate inútil. O Cavalo conduziu um breve silêncio, inspirar paz, expirar medo. E então começaram a ouvir.
Os relatos revelaram cansaço, turnos injustos e mal-entendidos. Ajustaram escalas, formaram duplas mistas no portão e combinaram sinais de cooperação. No fim, cantaram baixinho, e a poeira do pátio assentou.
Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus (Mt 5,9).
A partir daquele dia, o quartel continuou firme, porém mais humano. O Leão repetia que a verdadeira força nasce da harmonia; o Cavalo lembrava que coragem é manter a calma quando tudo pede pressa. A lição corria pelos corredores: a paz se constrói com passos simples e mãos estendidas. Que cada leitor, onde estiver, escolha uma palavra que una, um gesto que reconcilie; e, sob o mesmo céu, sejamos sentinelas da esperança.



