Quando a Luz se Acende por Dentro
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Quando a Luz se Acende por Dentro

No santuário de pedra no alto da cidade, velas tremeluziam diante do sacrário, e o aroma de incenso repousava como um abraço. Mariana e Lucas entraram em silêncio. Ela carregava uma pressa insatisfeita, como se a vida estivesse sempre devendo algo. Ele trazia um sorriso leve. Diante dos vitrais, o tempo parecia amansar; as cores dançavam no chão como pequenos milagres que ninguém compra, apenas recebe.

— Às vezes acho que nada acontece como deveria. Trabalho, sonhos, planos… tudo parece pouco. Venho aqui, peço, e ainda sinto um vazio que não sei preencher.

— Eu também peço — disse Lucas —, mas tento perceber o que já nos foi dado. O sol que nos aqueceu no caminho, a mão que agora eu seguro, o pão que não faltou hoje. O simples, quando visto com carinho, é um presente.

O celular de Mariana vibrou. O e-mail dizia que o projeto que ela esperava havia sido negado. As palavras pareceram um peso no peito. Ela fechou os olhos, e as lágrimas vieram, grossas, como chuva que cai quando a nuvem já não aguenta.

— Não adianta nada — murmurou. — Eu me esforço tanto e continuo sentindo que não sou suficiente. Tudo escapa.

— Talvez não seja sobre ter mais — respondeu Lucas, baixo. — Talvez seja sobre enxergar melhor. A vida às vezes muda quando o coração muda a lente.

Mariana caminhou ao corredor lateral e viu ex-votos simples, placas com agradecimentos, fotos amareladas. Uma senhora idosa, com um rosário gasto, acendeu uma vela e sorriu para ela. No canto, um cântico suave lembrava que a esperança floresce no silêncio. Mariana respirou, e, como quem recolhe conchas na praia, juntou memórias: o café quente de manhã, a risada de Lucas, o vento frio no rosto, a coragem que não a abandonara.

— Lucas… obrigada por estar aqui, por me lembrar do que não tem preço. Quero aprender a notar o bem antes de pedir o próximo passo. Prometo tentar, todos os dias.

— Então já começou — disse ele, apertando sua mão.

Ao sair do santuário, nada do lado de fora havia mudado; mas por dentro, uma luz discreta se acendera. E Mariana entendeu: a gratidão pelas pequenas coisas não apaga as lutas, mas ilumina o caminho para atravessá-las.

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