Onde a Represa Aprendeu a Respirar
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Onde a Represa Aprendeu a Respirar

Ao entardecer, a represa parecia um espelho vivo. As águas guardavam luzes como se pequenos vaga-lumes nadassem sob a superfície, e o vento sussurrava histórias de quem já tinha rezado ali. Lucas caminhava na borda, olhos sonhadores e inquietos, enquanto Ana o acompanhava com passos firmes.

“Se Deus fala, por que às vezes só escuto silêncio?”, perguntou Lucas, chutando uma pedrinha que dançou três vezes sobre a lâmina d’água. Ana sorriu: “A represa não é mudez, é espera. Ela guarda até o tempo certo de abrir as comportas. Nossa alma, quando confia, faz o mesmo.” Os reflexos se retorceram em formas fantásticas: as comportas se desenhavam como asas, e cardumes escreviam linhas que pareciam trechos do Evangelho.

De repente, o vento aumentou. As dúvidas de Lucas se adensaram como sombras sob seus pés. Ele escorregou, o coração disparou, e as águas subiram como se quisessem engoli-lo. “E se nada fizer sentido?”, gritou, num desespero que embalou ondas. Ana ajoelhou na beira, chamou seu nome e, com a voz firme, deixou a fé abrir sua própria comporta.

Mesmo que eu passe pelo vale escuro, não temerei, porque Tu estás comigo.

“Jesus, eu confio em Vós”, repetiu, como quem lança uma corda de luz. As sombras dissolveram, transformando-se em peixes prateados. Lucas emergiu, chorando, e encontrou em Ana um abraço que dizia mais do que mil respostas.

Na calmaria, eles abriram uma pequena comporta. Um fio de água correu a irrigar campos distantes. Lucas entendeu: a fé não é negar perguntas, é entregá-las. Quando confiamos, as águas represadas de dentro correm para a vida. A lição ficou como eco manso: em tempos de incerteza, a paz nasce quando nos deixamos conduzir pelo Invisível. Dúvidas existem; a esperança as atravessa.

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