À beira do lago, onde o mundo parecia respirar mais devagar, a família Silva buscava aquilo que lhes faltava há meses: silêncio que acolhe, palavras que não ferem, um olhar que abençoa. A água espelhava céus alternando-se entre azul e nuvens pesadas, como a vida, ora calma, ora prestes a ventar. André, Clara, Lucas e Maria caminhavam com passos contidos. Havia um tema difícil por perto, uma decisão que poderia arrancá-los dali: a proposta de trabalho de André, promissora, distante e exigente.
Foi Maria quem encontrou a lágrima de cristal entre os juncos: um pingente esquecido, em forma de gota, que a luz do entardecer atravessava, lançando pequenos arco-íris na palma de sua mão. Clara sorriu com doçura. “Às vezes a dor se torna transparência”, disse, lembrando-se de que a fé, quando provada, polida pela oração, aprende a refletir a luz de Deus. Lucas aproximou-se e, sem dizer muito, encostou a própria bochecha na mão da mãe, pedindo perdão por respostas ásperas dos últimos dias. O lago, testemunha silenciosa, tremeluziu como quem confirma: há beleza que nasce do choro quando esse choro é confiado ao Altíssimo.
Nesse instante, um pato surgiu com passos engraçados e olhos atentos. Tobias era conhecido por todos; parecia bisbilhotar segredos com o bico e ouvir silêncios com as asas. Parou diante da família Silva como um pequeno guardião do lago. Andre riu: “Até o Tobias veio vigiar a nossa conversa”. O pato bafejou a água, fez círculos suaves e, sem pressa, mostrou o contrapeso da vida simples: mover-se sem violência, aceitar a brisa, esperar o próprio tempo. Ao redor, as ondas mínimas iam e vinham, ensinando sem voz.
Lucas tirou do bolso uma folha e dobrou um barco de papel. Escreveu, com a letra insegura, as iniciais de todos: S de Silva, e caprichou nos riscos como quem desenha um futuro. Empurrou o barco para o lago. Tobias acompanhou ao lado, fiel e curioso. Uma rajada repentina quase virou o papel. O pato, porém, nadou contra o vento, quebrando a corrente e criando um canal de águas mansas: o barquinho se endireitou. André apertou a mão de Clara. “Como é que um pato ensina coragem desse jeito?”, sussurrou, meio rindo, meio rezando.
Chegou a hora de dizer o que doía. André explicou que a vaga significava mudança de cidade e fins de semana sacrificados. O rosto de Clara pesou ao lembrar da avó de saúde frágil. As crianças, quietas, miravam o barco. O céu escureceu de leve, e o lago, obediente, ficou crespado. Então, Clara tirou do bolso o terço e todos fizeram, juntos, uma dezena. O vento diminuiu, e as palavras pareceram encontrar casa.
“Aquietai-vos e sabei que Eu sou Deus” (Sl 46,10).
Maria murmurou, em eco: Deus escreve certo por linhas tortas
. André segurou a lágrima de cristal como quem segura um pequeno sacrário: “Se a dor purifica, que ela nos ajude a escolher com amor”.
Climax não é apenas grito; às vezes é um assentir firme. A família Silva decidiu permanecer. Não por medo, mas por prioridade. André recusaria a proposta e buscaria outro caminho, mesmo que mais modesto, que preservasse jantares partilhados, domingos na comunidade e o cuidado com a avó. “São José não precisou de palácios para ser grande”, disse Clara, e todos assentiram. Tobias deu um grasnado curto — parecia um amém. O barco de papel encostou na margem, intacto, como se devolvesse o sonho em forma de promessa: permanecer unidos, mesmo quando o vento chama de longe.
Ao final, Lucas colocou a lágrima de cristal sobre uma pedra lisa, como um pequeno oratório da memória, e Maria lançou mais dois barquinhos: “Um pelo papai, outro pela vovó”. O lago acolheu cada gesto, ora espelhando céu, ora revelando profundidades. Na volta, caminharam devagar. Havia poucas palavras, mas muitos sinais: mãos dadas, passos sincronizados, um pato que os seguia a uma prudente distância. Na calma recém-achada, compreenderam que escolheram não o caminho mais fácil, mas o mais verdadeiro, e que a Providência, como o lago, sabe alternar bonança e vento para amadurecer os corações.
Lição moral: Quem busca harmonia escolhe primeiro as pessoas, depois os planos; e, confiando em Deus, transforma lágrimas em luz e sonhos frágeis em decisões firmes. A paz nasce quando a família reza, escuta e decide unida — e então até o vento aprende a respeitar o pequeno barco da esperança.



