A cadeia cheira a ferro e sabão barato. O tempo é medido pelo arrastar das sandálias e pelo tilintar das chaves. Eu, Joaquim, conto rugas como quem conta pecados. No bolso, guardo uma carta antiga, amachucada, que escrevi à minha filha antes de as portas fecharem atrás de mim. Entre paredes frias, descobri que a distância não apaga — ilumina.
Escrevi aquela carta num dia de sol, quando ainda achava que o mundo me devia explicações. Não enviei: faltou coragem. Hoje leio suas linhas amareladas como quem consulta um sacrário doméstico. Ali, o homem que fui diz à menina que amei mais do que soube mostrar. Pego o terço improvisado de migalhas e relembro, em cada conta, que o amor tudo crê, tudo espera.
Filha, perdoa teu pai. Se eu soubesse voltar, começaria por te ouvir. Não te peço que esqueças; peço-te que me dês uma chance de cuidar do que ainda pode florescer.
Ao reler, algo dentro de mim cede. Entendo que o amor e o desejo de redenção pesam mais que meu passado. A cela permanece a mesma, mas o coração ganha janela. Decido escrever o endereço que evitei, pedir o selo que sempre recusei. A caneta treme, mas traça pontes.
Sei que perdão não é borracha: é memória aquecida por misericórdia. Recordo o Evangelho sussurrado pelos companheiros de cela: estive preso e vieste visitar-me
. Hoje sou eu quem visita a filha com um pedaço de papel. A distância, dura como ferro, ensinou-me que o afeto é mais teimoso do que a culpa.
Quando entrego a carta ao agente, o tilintar das chaves parece outro sino. Não sei se ela responderá. Mas envio junto a fé de que, na família, o amor de Deus atravessa muros e restabelece laços. Aprendi atrás das grades que o perdão não absolve o passado: ele inaugura caminhos. E todo caminho de volta começa com uma carta enviada.



