O acampamento nasceu de uma vontade de desligar. Guardamos os celulares e, sob o cheiro de pinheiros úmidos, Padre Miguel caminhava devagar, como quem escuta o chão. Ele dizia que a natureza é catequista silenciosa: aponta, sem pressa, para o essencial. Enquanto montávamos as barracas, cada um contava sua pressa, seus medos, suas escolhas que ficaram pela metade.
Ao redor da fogueira, as brasas serviram de espelho. Padre Miguel sorriu e fez uma pergunta simples, que ficou pesando no ar:
O que você anda adiando que merecia ser amado hoje?
Alguns apressaram-se para tirar fotos do pôr do sol; outros reforçaram as estacas, ainda que o céu estivesse limpo. Ele apenas olhava, em silêncio, como quem sabe que a vida se adianta — ou se atrasa — nas pequenas decisões.
A tempestade veio sem pedir licença. O vento virou panelas, a lona gemeu, a água correu por onde encontrou descuido. Chamados pelo nome, reunimo-nos sob o toldo; alguém prendeu melhor as cordas, alguém segurou a lanterna, alguém estendeu um casaco. Padre Miguel propôs uma breve oração e, entre trovões, disse:
Escolher no tempo claro é a maneira mais humilde de agradecer a Deus pelo tempo escuro que virá.
Quando a chuva cansou, restaram pingos, risos tímidos e chocolate repartido. Uma brasa teimosa aquecia as mãos. Quem havia reforçado tudo recolheu com calma; quem correu atrás das fotos secava meias. Ninguém foi condenado: todos fomos convidados. Padre Miguel comentou, quase em segredo, que a barraca não cai quando o coração sabe para que montou o acampamento.
Ficou a lição: não controlamos as tempestades, mas podemos fincar, todos os dias, as estacas do propósito. Escolher amar antes de ser aplaudido, perdoar antes de ser pedido, escutar antes de responder. Na simplicidade do pão partilhado e do silêncio que sobra depois do susto, a graça nos visita. E a vida, mais leve, encontra direção.



