No coração do SubterrâNeo, rios de cristal cantavam sob abóbadas de pedra, e florestas de fungos luminosos pintavam o ar com cores que dançavam. Entre pedrinhos faiscantes e salamandras cantoras, a convivência oscilava entre harmonia e desentendimentos. Foi ali, na Praça dos Ecos, onde as vozes se repetiam mil vezes, que Luna, Tico e Mira chegaram pela primeira vez, com os olhos brilhando como se olhassem o amanhecer por dentro da terra.
Luna, curiosa e sonhadora, colheu luz das paredes como quem colhe esperança. Tico, aventureiro e brincalhão, pulava sobre rochas ressonantes, rindo do barulho. Mira, sensível e atenta, caminhava devagar, percebendo os gestos das criaturas: o cuidado dos toupeiros alados ao carregar ninhadas, o respeito dos tecelões de névoa ao cruzar os caminhos alheios.
O desencontro começou quando Tico imitou o chamado grave dos Carapaças de Basalto, um povo de costas rochosas cujo som, profundo, significava alerta. Em instantes, eles cercaram as crianças, carapaças vibrando como tambores de tempestade. A praça, antes música, virou silêncio tenso. Luna sentiu o coração apertar; Tico, corado, percebeu que sua brincadeira ferira algo sagrado.
Mira ergueu as mãos, devagar, e falou com voz pequena e clara, como quem faz uma prece: não viemos provocar, viemos aprender. Luna desenhou no ar, com pó de fungo, figuras de amizade e caminhos compartilhados. Tico deu um passo atrás e pediu perdão, reconhecendo que rir sem escutar é ferir sem querer. As carapaças hesitaram, e o rumor em seus cascos abrandou.
Juntos, criaram uma solução: um Mapa de Sons e Cores. Cada povo ensinou seus sinais — o alerta, a saudação, o convite — e as crianças registraram tudo em pedras de luz. Na semana seguinte, a praça celebrou o Festival dos Rumores Bons: tambor e brilho, palavra e pausa, respeito e riso no mesmo compasso.
Desde então, quando o eco volta, ele não traz medo, mas compreensão. O SubterrâNeo aprendeu que diferenças são pontes quando o coração decide ouvir antes de falar.
Lição: a tolerância e o respeito nascem quando reconhecemos o valor do outro, pedimos perdão quando erramos e escolhemos aprender juntos.



