A Lâmpada na Cripta
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A Lâmpada na Cripta

A cripta da antiga paróquia respirava um frio que convidava ao recolhimento. A Família Santos desceu seus degraus como quem desce ao próprio coração. João, o pai, guardava as chaves das tradições; Maria, a mãe, trazia um olhar capaz de acalmar arestas; Carlos, o primogênito, ansiava por desvendar passagens; Ana, a sonhadora, via nas sombras a promessa de um jardim oculto.

Não desciam para visitar lápides, mas símbolos: nichos onde jaziam promessas esquecidas e laços empoeirados. João acendeu uma lâmpada de óleo chamada Confiança. Maria abriu um pequeno espelho chamado Escuta. Carlos apertou uma corda batizada de Coragem, e Ana trouxe flores que ela nomeou Esperança. As paredes, cobertas de inscrições, sussurravam como uma catequese silenciosa.

Levai os fardos uns dos outros.

Quando o vento apagou a Confiança, a porta de pedra se fechou com um gemido. A cripta multiplicou corredores e cada um tentou avançar sozinho. João bateu forte, Carlos puxou a corda sem esperar, Ana chorou pelo jardim que não via, e Maria, mediadora, pediu silêncio. Foi então que confessaram sua poeira: a rigidez de João, a impetuosidade de Carlos, o medo oculto de Maria, o idealismo cego de Ana. Perdoaram-se, e com o óleo de pequenos frascos que cada um guardava, reabasteceram a lâmpada do outro.

O espelho da Escuta revelou a passagem apenas quando se olharam com verdade; a Coragem serviu para atar uns aos outros, e não para correr à frente; a Esperança perfumou o ar. A porta ergueu-se, e no centro encontraram um relicário: “Fidelidade”. Entenderam que amizades não se descobrem prontas — são cultivadas como uma chama que precisa de óleo comum.

Ao deixarem a cripta, reconheceram que a amizade é escolha diária: acender de novo, ainda que o vento sopre; escutar antes de exigir; sustentar o peso do outro com paciência. Assim, como em oração diante do Mistério, a vida floresce quando se decide amar. E a lição ficou gravada: a verdadeira amizade exige esforço, perdão e dedicação — e por isso dura.

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