O pântano murmurava como um escritório depois do expediente: rãs em coro lembrando notificações, juncos que se enroscavam como prazos e metas, e uma névoa que imitava a confusão das opiniões alheias. Tomás caminhava por ali, os sapatos bebendo água e o coração pesado, como quem carrega um crachá sem saber para quê. Na mão, ele levava uma Lanterna desligada — presente do avô — que sempre o acompanhava, mas que ele raramente acendia. Dentro dele, uma pergunta persistia, como um mosquito que não se espanta: q para que serve meu trabalho, afinal? q
Foi então que ouviu um assobio leve. De trás de uma touceira, surgiu Luzia, uma criança de olhos límpidos, as meias sujas de barro e a curiosidade intacta. Ela catava pequenas flores aquáticas, como quem recolhe milagres escondidos. q Por que você anda em círculos, moço? q, perguntou, apontando o trilho de passos repetidos que Tomás deixava na lama. Ele sorriu sem graça e ergueu a Lanterna. q Para ver se encontro uma saída. q Luzia franziu a testa: q E por que ela está desligada? q A inocência dela não acusava; esclarecia. No pântano, a pergunta soou como sino de aldeia.
Os dois seguiram juntos, e Tomás percebeu que a menina pisava firme, como quem conhece o chão. q O pântano só engole quem se apressa, q ela disse. q Ele guarda trilhas, mas pede silêncio para mostrá-las. q Tomás lembrou-se de São José Operário, que santificou o trabalho sem holofotes, e de como o avô lhe dizia que fé não é atalho, é direção. Na bruma, Luzia parou e apontou para a Lanterna: q Ela funciona se a luz começar por dentro, não por fora. q Ele desviou o olhar, cansado da própria incerteza. Então, como quem abre uma janela, a menina sussurrou: q Você já perguntou a Deus por que Ele lhe deu as mãos que tem e a cabeça que tem? q
q Tua palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho. q (Sl 119,105)
No exato instante em que a citação ecoou, o pântano pareceu prender a respiração. Este foi o clímax: Luzia revelou a Tomás a necessidade de olhar para dentro. q A confusão aqui fora é sombra do barulho aí dentro, q disse. q Se você pedir a Jesus que acenda a sua fé, a Lanterna vai só confirmar o que já brilhou no coração. q Tomás fechou os olhos e, com um gesto esquecido, rezou: q Senhor, mostra-me o sentido do meu trabalho. q Girou o botão, e a Lanterna acendeu, clara e fiel, desenhando uma trilha entre as raízes. A luz não afastou o pântano; apenas o interpretou. Ele viu onde pisar, onde esperar, onde recuar. Viu também, com nova nitidez, por que escolheu sua profissão — para aliviar cargas, resolver problemas reais, tratar pessoas, não planilhas, como rostos e histórias.
Enquanto caminhavam, Tomás percebeu os colegas nas feições das árvores: o estagiário inseguro, a gerente cansada, o cliente ansioso. q Se a minha luz vem da fé, posso ser farol, não holofote, q pensou. Planejou pequenas fidelidades: ouvir antes de responder, orientar com paciência, trabalhar com justiça, recusar atalhos tortos, fazer de cada entrega uma oferta. A água do brejo continuava turva, mas já não era ameaça; tornara-se espelho. Na beira firme, Luzia soltou um sorriso que parecia Aurora. q Lembre-se: Deus não o contratou para um cargo; chamou-o para uma missão, q disse, voltando a colher flores.
Tomás respirou fundo. O pântano havia revelado sua pedagogia: enfrentar a lama com passos de oração. Guardou a Lanterna no bolso como quem guarda um sacramento cotidiano e decidiu que começaria o dia visitando a capela do prédio, pedindo luz antes de abrir o e-mail. Voltaria ao trabalho não para provar valor, mas para servir. Na despedida, a menina acenou, e a névoa, por um instante, abriu-se como uma clareira. Ele entendeu, enfim: a verdadeira luz para sua vida profissional vinha da fé, e com ela ele podia, sim, fazer diferença na vida dos outros. E assim aprendeu a lição que o pântano cantava baixinho: quando a fé ilumina o ofício, o propósito floresce e o sucesso volta a ser fruto de um coração inteiro.



