Na usina, o som do vapor e o compasso das máquinas lembravam a Pedro que nada ali funcionava sozinho. Cada turno dependia do outro, cada gesto precisava de respeito. Maria, sua esposa, costumava dizer que a fé se prova nas pequenas escolhas, e Lucas, o filho adolescente, aprendia a enxergar pessoas por trás dos capacetes. Tico, o cachorro da família, era a alegria das pausas, unindo sorrisos sem perguntar origem ou função.
Naquele meio-dia, Maria chegou com a marmita. Lucas veio junto, e Tico, abanando o rabo, fez amigos com os operadores no pátio. Por um instante, diferenças se dissolveram: o trabalho pesado parecia mais leve quando todos partilhavam uma mesma mesa e um mesmo cuidado.
Logo depois, haveria uma manobra delicada. Um aviso no quadro indicava: Válvula 3 fechada. Numa correria para segurar Tico, que escapara pelo corredor, Lucas retirou o pranchetão do gancho para não cair e, sem perceber, deixou a orientação apoiada junto à Válvula 2. O alarme soou. A equipe correu, o fluxo ameaçou a manutenção e o trabalho inteiro ficou em risco.
— Quem mexeu na válvula? — bradou Pedro, com o coração acelerado — Isso podia quebrar a bomba e atrasar todo o turno!
— Pedro — disse Maria, firme e mansa — respira. O amor é paciente. Vamos ouvir antes de julgar. Que o Senhor nos dê sabedoria. Estamos no mesmo barco.
— Pai… fui eu — confessou Lucas, cabisbaixo — Tentei segurar o aviso, mas acabei confundindo os lugares por causa do Tico. Sinto muito.
Pedro tirou o capacete, fez o sinal da cruz e olhou para a equipe. — Errei em me precipitar. Perdão, pessoal. Perdão, filho. Corrigiram a manobra, Tico deitou-se aos pés de todos, e a tensão virou aprendizado. A equipe sorriu; a colaboração voltou a fluir. Maria concluiu, serena: — Bem-aventurados os que promovem a paz: eles consertam mais do que máquinas, consertam corações.
Lição: Na usina e na vida, tolerância e respeito mantêm o motor da convivência aceso. Ouvir, dialogar e perdoar constroem pontes que nenhum alarme derruba.



