O penhasco erguia-se como um altar sobre o mar, e o vento, quase em prece, percorria as pedras. Ali, Lucas, criança sozinha, buscava silêncio para domar o turbilhão por dentro. Curioso e sensível, ele ajudava na mercearia da família, onde aprendeu a arrumar prateleiras e a somar trocos. Mas, nos últimos dias, a maré do trabalho parecia mais alta: pediram que colocasse etiquetas novas para dar aparência de promoção em produtos quase vencidos.
“É assim que o mercado funciona”, disseram a ele. A frase pesou nos ombros miúdos como um saco de farinha. Lucas sentiu a pressão de se encaixar nas expectativas, de ser “esperto” como os adultos. No coração, porém, ardia outra Voz. Sentado à beira do abismo, ele repetiu uma oração simples, pedindo luz para não ferir sua fé. Lembrou-se do que ouvira no catecismo e a lembrança veio como brisa: A verdade vos libertará
.
O dilema afiado: trair a própria fé, silencioso, e vender sem avisar; ou ser honesto e enfrentar a contrariedade. Lucas levantou-se, respirou fundo e desceu o caminho de pedras. De volta à loja, aproximou-se do tio, as mãos tremendo, e disse que não podia esconder a data dos clientes. Propôs colocar um aviso claro e oferecer desconto real. O tio franziu o cenho, temendo perder vendas, mas cedeu a contragosto.
Naquele dia, algumas pessoas agradeceram a sinceridade; outras foram embora. A caixa registradora não tocou como antes, mas o coração de Lucas, sim. Diante do mar, ao fim do expediente, ele sentiu a paz que não cabe em números. O penhasco permaneceu, firme, lembrando-lhe que a fé é rochedo: não impede o vento, mas dá chão para ficar de pé.
Lição moral: No trabalho, a fé ilumina a consciência e sustenta a integridade. É melhor perder vantagens do que perder a alma; a verdadeira recompensa é a paz de quem escolhe a verdade.



