No coração do Refúgio, havia um jardim escondido onde as pedras guardavam memórias e o vento falava em sussurros. Lucas caminhava com passos apressados, com o peito apertado como quem segura o próprio fôlego. As folhas pareciam espelhos que refletiam tarefas, expectativas e medos. Ali, sentado num banco de madeira gasta, estava Seu Manuel, cuja serenidade lembrava uma água que sabe esperar a fonte.
O velho lhe mostrou uma lamparina e uma pequena semente. O vento existe
, disse ele, acendendo a chama, mas não manda nas raízes. A luz não espanta o vento; apenas lembra à semente que há sentido em crescer devagar
. Lucas apertou a semente entre os dedos. Ele queria paz, mas o rumor por dentro era como um enxame em busca de saída. Então, juntos, respiraram, e Seu Manuel sugeriu: reza breve, passo curto, verdade inteira.
Quando a tarde escureceu, o vento do jardim tornou-se turbilhão. Lucas se afastou de Seu Manuel e mergulhou num labirinto de sombras. Cada trilha sussurrava cobranças: ser perfeito, ser rápido, ser forte. O peito ardeu, as mãos tremeram. Ele se perdeu nos próprios pensamentos, tentando escapar de portas que não existiam. O Refúgio parecia gigante, e ele, pequeno. Era a batalha que ninguém via, travada em silêncio.
Na quietude que veio depois do cansaço, Lucas pousou a semente no chão e, com um fio de voz, fez uma oração simples. Lembrou da lamparina, da raiz, do passo curto. A chama por dentro voltou a dançar. Ele retornou a Seu Manuel, e, ao partilhar o que sentiu, percebeu que o peso se desfazia como orvalho ao sol. Lição: aceitar que o vento sopra e procurar ajuda não é fraqueza; é cuidar das raízes. Em comunidade, com fé, conselho e paciência, a semente aprende a crescer apesar do vento — e a paz encontra um lugar para ficar.



