O Milagre do Beco de Zinco
Leituras Espirituais » Para refletir » O Milagre do Beco de Zinco

O Milagre do Beco de Zinco

Nos morros de telha de zinco e ruelas de cimento gasto, Lucas, 10, riscava anjos no muro com carvão, sonhando um palco de cores. Sofia, 9, ajeitava as frutas na banca da mãe, repartindo sorrisos com quem não podia pagar. Miguel, 11, carregava a irmã no colo, guardião da casa de madeira.

Eles caminhavam pela ladeira como pequenos santos sem altar: Lucas vestia a imaginação como túnica; Sofia, a bondade como manto; Miguel, a coragem como escudo. Na favela, milagres tinham cheiro de café, de chuva e de pão repartido. A graça brotava onde o mundo via pouco.

Uma tarde, o trovão feriu o céu e um curto-circuito faiscou no poste. O fogo lambeu o beco; o medo correu mais rápido que as pernas. Miguel gritou os nomes, tirou crianças da viela e amparou dona Cida. Sofia passou baldes, água e laranjas para os cansados. Lucas agitava um lençol branco, chamando ajuda. A imagem de barro de Nossa Senhora caiu do nicho e, intacta, ficou aos pés da porta. A chuva voltou e domou as chamas.

Depois, ofegantes, sentaram-se em roda. A vela tremia como coração em prece. Entre mãos dadas, sussurraram um Pai-Nosso e, com olhos molhados, contaram pequenas bênçãos: o caderno seco, a irmã a salvo, três bananas que sobraram, o telhado ainda de pé, os vizinhos vivos.

Dai graças em todas as circunstâncias (1Ts 5,18)

Naquela noite, cada um prometeu cultivar um altar de gratidão: Lucas desenharia um milagre por dia; Sofia separaria a primeira fruta para quem precisasse; Miguel anotaria no caderno as pequenas vitórias. A lição ficou gravada: a gratidão faz do pouco um sacrário e, da amizade, um abrigo que não pega fogo.

0 0 votos
Article Rating
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais votado
mais recentes mais antigos
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários

Categorias

Textos recentes

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x