No pequeno restaurante da esquina, o cheiro de molho lentamente abraçava as mesas. Lucas, inquieto, vinha ali para pensar no futuro. Do outro lado do balcão, o Sr. Alberto ajeitava um velho livro de receitas, encapado com papel pardo e manchas de azeite: herança de família e bússola do coração.
Entre pedidos e risos, Alberto contava lembranças: a primeira massa feita ao lado da mãe, os tempos difíceis em que dividir um pão curava desavenças, a oração sussurrada antes de servir. “Cada receita tem uma história”, dizia, abrindo páginas anotadas com datas, nomes e pequenas jaculatórias.
Um fim de tarde, Lucas encontrou a receita de Ensopado de São José, marcada por uma fita desbotada. No rodapé, uma dedicatória da esposa de Alberto. Ansioso por inovar, sugeriu mudar metade dos ingredientes. O velho fechou o livro num gesto seco; palavras duras surgiram, as panelas silenciaram.
Sozinho, Lucas folheou de novo e leu: “Para dias de espera, cozinhar devagar”. O peso caiu. Aproximou-se e pediu perdão. Alberto respirou fundo, sorriu e apontou uma nota antiga: “Provar é escutar”. Juntos, rezaram baixinho, e ele assentiu: manteriam a alma da receita, permitindo um toque de frescor.
Ensina-nos a contar os nossos dias, e assim alcançar coração sábio.
Enquanto o ensopado firmava, o restaurante ganhou calor de casa. Lucas entendeu: tradição não é grade, é raiz; não sufoca o novo, o sustenta. As experiências passadas temperam escolhas futuras como sal no ponto: revelam, não escondem. Ao partilhar o prato, aprenderam a partilhar também o tempo que Deus lhes concede.



