O Relógio da Sala e o Pão no Forno
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O Relógio da Sala e o Pão no Forno

A casa de madeira rangia com uma música própria, como se cada passo contasse uma história antiga. Pelas frestas, o sol da tarde desenhava listras no chão da cozinha, onde o aroma de bolo se espalhava como promessa. Lia corria de um lado para outro, pequena e leve, mas com o coração apressado. Na sala, o velho relógio marcava o tempo com um compasso firme, e o Senhor Antônio, sentado na poltrona de tecido gasto, observava com olhos que já tinham visto o tempo ensinar. Naquele lar, que tantas vezes fora escola silenciosa de virtudes, Lia aprendera a pedir desculpas, a agradecer e a dividir. Faltava-lhe, contudo, compreender a força suave da espera. A casa, como a vida, parecia sussurrar: algumas coisas só florescem quando não se puxa as pétalas antes da hora.

— O bolo já está pronto? — Lia perguntou pela terceira vez, abrindo o forno por uma fresta. O ar quente escapou, e a massa, ainda crescendo, tremeu como susto. Impaciente, ela correu até a sala, começou um quebra-cabeça e, por querer terminar depressa, empurrou as peças onde não cabiam. O ponteiro do relógio não cedia a seu desejo e o barulho do pêndulo a irritava. Voltou à cozinha, abriu o forno mais uma vez e, ao fechar a porta com pressa, o bolo murchou no centro como um suspiro triste. Lia sentiu os olhos arderem. — Nada dá certo quando demora — murmurou, entre choro e zanga. A casa ficou quieta, e até as panelas no escorredor pareceram pensar junto com ela.

O Senhor Antônio levantou-se com cuidado e sentou-se ao lado da menina. Sua voz tinha a calma de quem já atravessou muitas tempestades. — Quando eu era menino — começou —, quis consertar o relógio desta sala sem esperar meu pai. Eu tinha pressa de ouvir o pêndulo voltar a cantar. Coloquei as peças de qualquer jeito e quebrei uma pequena mola. Aprendi, então, que o tempo tem sua ciência, e que tocar no que ainda está se armando é como interromper um gesto de Deus. Também me lembro do pão que minha mãe deixava descansar coberto com pano. Se a gente mexesse antes da hora, o pão ficava pesado e triste. A vida no lar é assim: panela que ferve depressa entorna, palavra dita sem pausa fere, decisão tomada sem oração se perde. E a fé nos ensina isso. Até Nosso Senhor viveu anos no silêncio de Nazaré antes de começar sua missão. Como diz a Escritura:

Há um tempo para cada coisa debaixo do céu.

Lia enxugou as lágrimas e respirou. O Senhor Antônio sorriu de lado. — Vamos aprender com a casa? — convidou. Cobriram o bolo murchado com um pano, não mais por teimosia, mas por respeito ao processo. Ele colocou água para ferver e mostrou à menina como as folhas de chá precisam de repouso para soltar seu perfume. Abriram o quebra-cabeça de novo, separando as peças com paciência, começando pelas bordas. O relógio continuou sua batida, não como afronta, mas como companhia. Enquanto esperavam, fizeram uma pequena oração por quem também aguardava algo: um emprego, uma notícia, um reencontro. A cada respiração, Lia sentia o coração desamarrotar. Quando finalmente o forno avisou, o novo bolo cresceu inteiro, e o aroma preencheu a casa como quem devolve a alegria no tempo certo.

Na mesa, partilharam o bolo fofo, e Lia, com um sorriso tímido, olhou para o relógio que voltara a ser amigo. — Eu queria que tudo acontecesse já, mas percebi que eu estraguei o que estava nascendo — confessou. O Senhor Antônio tocou de leve sua mão. — Esperar não é cruzar os braços; é preparar o coração, cuidar do que depende de nós e confiar no que não depende. Em casa aprendemos isso todos os dias. Lia assentiu, lembrando-se do pão, do relógio e do chá. Ao recolher as migalhas, entendeu que a paciência não empobrece a vontade; ela a purifica. E, no silêncio aquecido daquele lar, a menina descobriu que a espera, quando acolhida, faz nascer o melhor fruto do amor.

Moral: A paciência é o forno da esperança: sem ela, mesmo o melhor fermento não sustenta o pão; com ela, o coração amadurece, compreende o outro e alcança o que busca no tempo certo.

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